|Suporte do Amortecedor / Citroën C3

Veja o procedimento de troca do kit de reparo da suspensão dianteira em um Citroën C3, com ênfase no posicionamento do coxim superior da torre, cuja montagem gera dúvidas e erros no mercado

Texto: Fernando Lalli  –  Fotos: Alexandre Villela

Molas e amortecedores são as principais peças da suspensão em um veículo, mas não trabalham sozinhas. Mais do que isso: a manutenção das peças periféricas é muito importante para manter todo o conjunto trabalhando em ordem, sem desgaste prematuro ou problemas de funcionamento. A montagem errada ou negligente em um reparo nesse sistema causa desde problemas na absorção de impactos do piso até perda de dirigibilidade do veículo. Falhas na suspensão colocam diretamente em risco a integridade física do seu cliente.

Profissionais de assistência técnica de todas as marcas de autopeças para suspensão recomendam que, a cada troca dos amortecedores, todo o kit de reparo seja substituído: batentes, coifas, coxins e, quando houver, isolantes de ruído das molas, rolamentos do conjunto e demais elementos. A substituição deve sempre respeitar o tempo ou quilometragem de garantia estipulada para a manutenção do sistema pela fabricante do veículo, bem como, suas respectivas posições de montagem corretas.

Entretanto, o mecânico com um pouco mais de experiência já viu de tudo entrando em sua oficina e, não raro, teve que lidar com a falta de cuidado de um serviço prévio feito por outro estabelecimento. Coxins estourados, batentes rompidos, coifas rasgadas: tudo isso traz problemas de funcionamento para o conjunto a curto, médio ou longo prazo. Mas, infelizmente, alguns profissionais ainda não se conscientizaram de que uma peça sem condições de ser reaproveitada pode pôr todo o serviço a perder.

Pior quando, ao invés de reaproveitar uma peça sem condições, o (ir)responsável pelo reparo resolve simplesmente deixar determinada peça de lado porque “não tem na distribuidora” ou “não veio no kit”. É uma situação gravíssima que afeta não só a imagem do estabelecimento que permite um ato como esse como também o nome de toda a classe de trabalhadores da reparação.

Aconteceu conosco!

O Citroën C3 (ano/modelo 2008/2009) utilizado nesta reportagem foi cedido por terceiros e tinha diversos erros de montagem em sua suspensão que poderiam provocar um acidente de trânsito. Examinando o veículo, o técnico em Desenvolvimento de Produto da Sampel, Thiago Kiyoshi Kano, identificou que o coxim superior da torre de suspensão dianteira-esquerda estava com seu pino-guia voltado para dentro, quando deveria estar para fora. Segundo Thiago, trata-se de um erro comum em campo. “Esse carro sofreu alguma manutenção e o coxim foi montado de forma invertida”, afirma.

 

ed-265-suspensao

 

ed-265-suspensao1

 

Na região do encaixe desse coxim, tanto do lado direito quanto do lado esquerdo, existem dois furos – o pino-guia sempre deve ser posicionado no furo que aponta para o para-lama. A região de fixação do coxim possuía marcas da montagem original que tornavam bem evidente o erro.

 

Como explica o técnico da Sampel, a montagem do coxim fora da posição original faz com que o amortecedor trabalhe fora do seu ângulo correto, o que pode danificá-lo. “A montagem errada vai sobrecarregar o coxim, tensionando a borracha, prejudicando sua durabilidade, diminuindo a vida útil da peça. Também pode gerar barulho e problemas de alinhamento”, declara Thiago.

 

Mas o problema mais grave na suspensão deste C3 só foi descoberto quando foi feita a desmontagem da suspensão: a ausência dos rolamentos do coxim superior da torre. Esses rolamentos são os responsáveis por fazer compensar a influência do movimento de esterço entre a torre e a carroceria. Logo, sem os rolamentos, o movimento da torre é forçado e sobrecarrega todo o sistema de direção, bandeja, embuchamentos, pivô, terminais etc. “Infelizmente, foi a falha de um aplicador que fez a manutenção de forma incorreta”, sentencia Thiago.

 

Para se ter uma ideia da importância dessa peça no conjunto, a Sampel teve o cuidado de incluir o rolamento original, fabricado pela SKF, no kit de reparo da suspensão para este veículo, vendido na reposição com a marca Samkit.

 

Para sanar qualquer dúvida sobre esse sistema, Thiago demonstra a seguir todo o processo para a correta desmontagem e montagem das torres da suspensão dianteira no Citroën C3. As dicas valem para todos os modelos dessa linha (exceto o novo C3) fabricados entre 2003 e 2012. O procedimento nas torres direita e esquerda é idêntico.

 

Desmontagem

1. Antes de desmontar a roda, faça uma marcação com um giz ou caneta no disco de freio para recolocar a roda na mesma posição, evitando perder a referência do balanceamento.

 

ed-265-suspensao2

 

OBS: Ao desmontar a roda dianteira-direita e erguer o carro no elevador, Thiago notou que o veículo estava sem para-barro e a capa das correias. Não é preciso desmontar nenhuma dessas peças para a remoção da torre de suspensão. Entretanto, elas têm a função de proteger peças importantes do veículo e sempre devem estar instaladas e íntegras. Caso você se depare com um caso assim em sua oficina, em qualquer veículo, comunique o cliente da necessidade da instalação de peças novas.

 

2. Comece a desmontagem da suspensão pela bieleta da barra estabilizadora. Utilize uma chave estrela 17 mm, segurando o terminal com uma chave estriada T30 para não fazê-lo girar. Thiago explica que o estriado do terminal indica que se trata de uma peça original Citroën. Algumas bieletas no mercado paralelo possuem fixações diferentes. Não precisa soltar a fixação inferior da bieleta na barra estabilizadora.

 

ed-265-suspensao3

 

3. Em seguida, desencaixe o flexível de freio de seu grampo na base do amortecedor.

 

ed-265-suspensao4

 

4. Remova em seguida o parafuso e a contraporca de fixação da base do amortecedor na manga de eixo.

 

ed-265-suspensao5

 

5. Ao soltar a base do amortecedor, constata-se que ainda não há espaço para removê-lo. Isso porque, ao tentar deslocar a manga de eixo, o semieixo da homocinética pega no quadro de suspensão. Portanto, você precisa fazer a remoção da manga, começando pela junta homocinética. Desrosquei a porca com chave estrela 30 mm.

 

ed-265-suspensao6

 

6. Siga para a pinça de freio. Solte os parafusos de fixação com chave estrela 16 mm. Não se esqueça de deixar a pinça sustentada por um barbante ou cinta plástica para não forçar o flexível. Mantenha também um ou dois parafusos de roda presos ao disco.

 

ed-265-suspensao7

 

7. Gire a torre para ter acesso ao terminal de direção, que também deve ser desconectado. Utilize chave estrela 16 mm para a soltura da porca de fixação, segurando o terminal com uma chave estriada T30.

 

ed-265-suspensao8

 

Obs: Neste veículo, Thiago não precisou de um sacador de terminais para desconectar o terminal de direção da manga de eixo. Apenas forçar a barra de direção foi o sufi ciente.

 

8. Solte a conexão entre o pivô e a torre, feita por um parafuso. Utilize chave catraca, soquete e prolongador para facilitar a remoção, não se esquecendo de travar a contraporca do outro lado.

 

ed-265-suspensao9

 

9. Para deslocar o pivô, é necessário fazer uma alavanca entre a torre e a bandeja com a ajuda de uma barra ou uma chave de fenda grande. Movimente apenas o necessário para soltar o pivô. Cuidado para não danificar as peças.

 

ed-265-suspensao10

 

10. Com todos os periféricos soltos, basta puxar a manga de eixo e removê-la do veículo.

 

ed-265-suspensao11

 

11. Para soltar a porca da fixação superior do amortecedor no veículo, utilize uma chave estrela com uma chave allen travando a haste do amortecedor.

 

ed-265-suspensao12

 

Importante: Neste caso, como o mesmo amortecedor será reinstalado, é imperativo evitar que a haste gire quando as porcas das fixações superiores (na carroceria e no coxim) forem soltas ou presas. Quando a haste gira, ela pode danificar as válvulas internas do amortecedor, o que pode até inutilizá-lo em casos mais graves.

 

12. Termine de remover a porca com uma das mãos, enquanto segura a torre com a outra mão, evitando que ela caia.

 

ed-265-suspensao13

 

 

13. Ao remover a torre e prendê-la na morsa, Thiago percebeu que a rosca da haste do amortecedor apresentava corrosão. Isso é consequência de mais um erro de reparo: a ausência da proteção da ponta da haste, um aplique de plástico que, para os menos atentos, pode parecer dispensável, mas cuja falta causa essa corrosão, o que dificulta a remoção da porca.

 

ed-265-suspensao14

 

 

14. Mais um detalhe observado por Thiago é que a coifa da haste do amortecedor estava solta, permitindo a passagem de impurezas. A coifa deveria estar encaixada na trava de segurança (em formato de “caneca”) localizada abaixo do coxim, selando aquela área contra a passagem de impurezas que pudessem contaminá-la.

 

ed-265-suspensao15

 

 

15. Com a torre presa corretamente na morsa, faça o encolhimento da mola para tirar sua tensão e, assim, poderá retirar o coxim superior. A ferramenta pode ser tanto hidráulica quanto mecânica, desde que as garras fi quem em lados diametralmente opostos.

 

ed-265-suspensao16

 

 

16. Solte a porca superior do coxim utilizando chave estrela 19 mm, combinada a uma chave allen nº 7 para segurar a haste – lembrando que é imperativo evitar que a haste gire quando o mesmo amortecedor será reinstalado.

 

ed-265-suspensao17

 

 

17. Na retirada do coxim, Thiago identificou que havia rachaduras na borracha da área interna ao redor do tubo, portanto, a vida útil da peça chegou ao fim.

 

ed-265-suspensao18

 

18. Abaixo do coxim, devem estar encaixados o prato da mola e o rolamento do coxim. Como citado anteriormente, neste veículo, os rolamentos não estavam instalados. O prato superior da mola apresentava as marcas do movimento forçado da mola pela ausência do rolamento.

 

ed-265-suspensao19

 

19. Por fim, retire a caneca, a mola, a coifa e o batente.

 

ed-265-suspensao20

 

OBS: Aproveite a retirada de todas essas peças para analisar a condição da haste do amortecedor, que não deve ter marcas de contato, azulamento ou indícios de vazamento de óleo. Em veículos com sinais de problemas em outros componentes de suspensão, como este, faça uma análise ainda mais criteriosa. Não reaproveite o amortecedor se ele tiver sinais de fadiga.

 

 

Montagem

A montagem da torre segue o processo inverso da desmontagem, prestando atenção aos pontos a seguir.

 

1. Ao posicionar o batente e, por cima dele, a coifa, certifique-se que a base da coifa esteja acomodada no tubo do amortecedor, enquanto o topo deve ser encaixado na “caneca” de segurança.

 

ed-265-suspensao21

 

Importante: a trava (ou “caneca”) se apoia na base do amortecedor para sustentar o coxim. A função desta peça é distribuir a força do movimento da suspensão uniformemente pela área em volta do tubo do coxim. Sem essa “caneca”, a haste aplicaria sua carga concentrada diretamente no tubo, e não distribuída pelo coxim, causando rupturas com o uso. Se esta peça não estiver instalada, vá a uma concessionária e a providencie. Não faça a instalação sem a trava – isso pode causar até a perda da garantia do coxim.

 

2. Observe a posição da mola ao recolocá-la sobre o amortecedor. O final de curso deve encostar no ponto de apoio indicado no prato inferior do amortecedor.

 

ed-265-suspensao22

 

3. Na instalação do rolamento, veja as abas de encaixe que fixam a peça ao coxim.

 

ed-265-suspensao23

 

4. Reinstale o coxim. O prato superior do amortecedor, encaixado ao rolamento do coxim, foi reaproveitado. Na recolocação da peça, que é simétrica, Thiago posicionou a extremidade superior da mola em outro ponto que não tinha sido afetado pelo desgaste excessivo causado pela ausência do rolamento.

 

ed-265-suspensao24

 

5. Rosqueie a porca de fixação do coxim com as mãos. Ao apertá-la com chave, mais uma vez, não se esqueça de segurar a haste com chave allen nº7. O torque específico para esta porca é de 70 a 90 Nm.

 

ed-265-suspensao25

 

6. Solte a compressão da mola, sempre observando os pontos de apoio corretos em suas extremidades. O coxim deve ter movimento de giro.

 

7. Na montagem da torre, o pino-guia do coxim deve apontar sempre para fora do veículo.

 

ed-265-suspensao26